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Fretes (com ou sem tabela) uma questão (grave)


É muito complexo fixar valores em uma economia de mercado. Escrevo, no caso, sobre preços de produtos e serviços. Só a tentativa já é prenúncio de "rolo" como demonstram a muitas iniciativas de tabelar de coisas, algo que apenas é possível por meio da dobradinha oferta e procura.

É muito simples: quando algo é muito atrativo e desperta atenção como negócio, todos querem fazer (participar). Todos querem algo melhor, mas o desejo esconde um perigo. Quando cresce a oferta daquele serviço (ou produto), o preço cai, a lucratividade baixa e os empreendedores afoitos até quebram.

Essas historias são conhecidas. Trabalhar com suínos antes das integrações, por exemplo, era uma experiência cheia de "altos e baixos". Faz pouco tempo, o governo tabelou o preço dos automóveis. Faltaram veículos e sobrou ágio. Quando o Estado se mete nessa relação é grande a chance de dar problema, e a corda estourar no lado mais frágil - o cidadão.

Atenho-me agora ao caminhoneiro autônomo. Aquele pequeno, que desconhece o mínimo de administração e - até por isso - quase sempre explorado. Que ganha pouco e não tem poder de barganha, mas paga mais pelo pneu, pois compra poucas unidades e a prazo. Que recebe tratamento algo similar na oficina que utiliza - e que nem sempre é de primeira linha. E que também paga mais pelo combustível, pois não dispõe de bomba própria nem de recursos para pagar à vista. Aí líderes (uns bem intencionados, outros nem tanto), frente a essa fragilidade visível, criam um movimento que os defenda. Misturam com política e jogam a "batata quente" nas mãos do congresso e do governo.

Como os políticos quase nunca dizem não, inicia-se uma fase protelatória com cara de solução, que não chega. Tudo se complica com uma tabela redentora, que até funciona no começo. Frotistas compram mais caminhões e as empresas também, pois barateia a logística própria e dispensa a terceirização, obedecendo a tabela. Esse ciclo completa-se com uma indústria altamente beneficiada pelo volume de venda de veículos, mesmo dentro de um mercado com uma frota acima dos produtos a serem transportados.

Há uma saída para os autônomos em crise: a criação de cooperativas ou a adesão a uma das já existentes.

Uma forma de descomplicar essas relações seria o governo abdicar do protagonismo. Admitir sua incompetência como negociador e estimular a discussão entre as partes interessadas. Talvez possa ser criado um preço mínimo, a exemplo de salário. Tão justo que não custeie a falta de produtividade e a ineficiência. Dois itens normalmente embutidos nas tabelas.

Enquanto isso não ocorrer, serão muitas as brigas nesse setor, com danos econômicos e sociais graves - e os mais fracos sofrerão. E muito.

Se a verdade ou a realidade não forem encaradas logo, teremos problemas sérios logo à vista.


Ito Lanius

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