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Só sei que nada sei


Uma das pessoas mais interessantes para mim na história do pensamento é Sócrates. Muitos já conhecem ou já ouviram falar de algumas máximas ou frases de Sócrates como: "Só sei que nada sei", "conhece-te a ti mesmo". Também sobre o método utilizado na abordagem do saber: "maiêutica" e "ironia". Apesar de tudo isso, é interessante o fato de que nada sabemos de Sócrates a não ser por seus discípulos Xenofonte e Platão. 
 
O pensar sobre a existência humana e o sagrado começa com Sócrates na medida em que o seu método introspectivo aponta para uma verdade que se encontra no interior de cada ser humano. A máxima "Conhece-te a ti mesmo" expressa uma espiritualidade na qual a alma volta-se para si mesmo e busca no seu interior o conhecimento verdadeiro sobre o absoluto, isto é, a inteligência pura que tudo submete a si. 
 
Pela lei moral, Sócrates expressa a vontade divina. Através dela, pode-se formar uma consciência voltada para o bem viver, isto é, uma vida virtuosa, meio pelo qual se pode alcançar a sabedoria divina e a ela se identificar. 
 
A humildade socrática, expressão de sua espiritualidade, aparece na máxima: "sei que nada sei". Ele tem a consciência de que há uma sabedoria objetiva da qual somos ignorantes e o que nos resta é a consciência de nossa insuficiência diante dessa grandeza. Ideia oposta à maioria dos mestres de sua época que pensavam saber. 
 
Sócrates entendia que a verdade é transcendental e, por isso, ela não se esgota no entendimento humano; sabe das limitações do pensamento e da ignorância que se alimenta de opiniões. Pensava que o problema da verdade, da justiça e do bem pertencia ao campo divino, do qual possuímos somente uma centelha a ser desenvolvida: a alma racional. Dizia que a causa do mal no mundo não pode estar nas coisas ou no homem, mas na ignorância, na falta de saber. Pelo menos, saber que nada sabe, já seria um saber sobre a ignorância, o primeiro passo para a busca da verdadeira sabedoria. 
 
A opinião, por ser imediata e individual, era insuficiente para Sócrates. O saber, para ele, devia ter um método de diálogo, por isso o conhecimento deve ser partilhado: falar e ouvir; perguntar e responder, e isso poderia ser feito tanto em praça pública quanto na solidão da própria alma. Para ele, em toda pessoa há um saber adormecido à espera de alguém para despertá-lo. Por isso, o seu método, a "maiêutica" ou "arte de dar à luz", apesar de desafiar o saber ignorante, chegava a conclusões sobre a ignorância do saber, como podemos constatar em sua "ironia" religiosa. O Oráculo de Delfos exclamou: "O maior sábio da humanidade é Sócrates!" Ele responde: "Só sei que nada sei, e o fato de saber isso me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa." 
 
Publicada originalmente em 28 de março de 2018

David Orling

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