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Qual é o teu nome?


A primeira coisa que ganhamos ao nascer é um nome. É um direito, é uma identificação, é algo próprio de cada um de nós, a partir do qual escrevemos nossa história e queremos ser lembrados. Escolher o nome de alguém (um filho, um neto, um afilhado) é uma responsabilidade e tanto. Mas você já se perguntou como seria se o seu nome lhe fosse subitamente tirado?

Foi a partir do nome de pessoas que viveram no Vale do Taquari entre os anos de 1787 a 1850 que foi escrita e defendida, na tarde da última quarta-feira, a tese de doutorado de Karen Daniela Pires, pelo Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento da Universidade do Vale do Taquari - Univates, intitulada Compadrio, parentesco e família: escravizados, libertos e livres na Paróquia de São José de Taquari, Rio Grande do Sul. Tive a honra de participar da banca avaliadora e digo que o trabalho me impactou profundamente, pois se trata de um resgate histórico das vidas de pessoas negras que viveram à época na região de Taquari, a qual hoje compreende grande parte dos municípios do vale.

A partir da consulta a certidões de batismo e outros documentos (inventários, certidões de óbito, contratos de compra e venda), Karen pesquisou nome por nome das pessoas negras escravizadas que, ao chegarem em terras brasileiras, perdiam seus nomes de origem africana e recebiam um nome cristão. Ali está escrita parte da história de José, de Rita, de Manoel, de Marcolina e de muitos outros, assim como os laços familiares e comunitários que foram estabelecendo ao longo do tempo, além dos locais de procedência da África e as rotas traçadas até chegar ao Rio Grande do Sul. Em sua maioria, não consta sobrenome, mas apenas a quem pertenciam, o que hoje dificulta muito a reconstrução da árvore genealógica de seus descendentes.

A pesquisa é de uma riqueza ímpar pois, se olharmos bem, ela resgata a história de antepassados dos atuais habitantes da região e, com isso, vai reconstituindo histórias de vida. Cada nome, cada relação de compadres e comadres de batismo, as inter-relações pessoais, a procedência da pessoa e sua condição, nada disso escapa ao olhar aguçado de Karen. Nessas histórias, não há como escapar da crueza e crueldade próprias da escravização de pessoas, como a separação de bebês de suas mães para posterior comercialização de um ou de outro, a coisificação das pessoas, numa prática que perdurou mesmo depois de ter sido legalmente proibido no Brasil o tráfico de negros escravizados. Por vários momentos é preciso parar a leitura, para retomá-la um tempo depois. Não é uma narrativa da literatura de ficção, é história de verdade.

Por outro lado, a beleza do trabalho reside justamente no resgate dessas histórias e na luz lançada sobre tantos nomes, por trazer à superfície fatos sobre os quais pouco sabemos. Os nomes de homens e mulheres negras encontrados (e mencionados um a um na pesquisa) certamente não viraram nomes de ruas ou tiveram monumentos em sua homenagem, embora sua força de trabalho tenha sido elementar para a construção de uma região economicamente desenvolvida. Graças ao olhar de Karen, não estão mais fadados ao esquecimento. A partir dessa pesquisa, muita coisa pode ser descoberta. Parabéns à Karen e à sua professora orientadora, Dra. Neli Gallarce Machado, por uma pesquisa tão cuidadosa a respeito de nosso passado. Como diz um provérbio africano descrito no livro Um defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves (aliás, um livro maravilhoso sobre um personagem negro muito importante na história brasileira - não vou dar spoiller, não vou contar quem), "Mesmo o leito seco de um rio ainda guarda o seu nome." Que bom que ainda poderemos guardar e lembrar todos esse nomes.


Fernanda S. Pinheiro

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