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Duplicação da BR-386: um viaduto ao invés de flores para dona Valéria

Moradoras do Bairro Olarias descartam venda para a obra e não aceitam deixar a propriedade


As professoras Marisa e Marlise Marazini em frente à janela do quarto da mãe, Valéria, 85 anos: angústia com o projeto do viaduto que passará ao lado - Lidiane Mallmann

LAJEADO | As professoras Marisa e Marlise Marazini e a mãe, Valéria, moram na rota de duplicação da BR-386. Dona Valéria, que em abril completa 85 anos, recebe um presente amargo: saber que um viaduto está marcado para passar ao lado da janela de seu quarto. Elas ainda não têm ideia do que fazer, sentem-se às escuras. "Se eu tiver que sair daqui, morro antes", diz Valéria.

Para as três mulheres a angústia é grande e vem aumentando desde o inverno passado, quando se apresentou à porta um homem se dizendo engenheiro, com equipe para "medir" a propriedade que, em três áreas, compõe mais de 5 mil metros quadrados no bairro Olarias, ao lado do Country Clube. "Ele disse que precisava medir porque estavam fazendo um projeto. Respondi que a área não estava disponível", diz Marisa.

Depois veio outro, disse que era do Rio de Janeiro e explicou que era preciso medir, porque havia três pontos em discussão e talvez a área delas nem fosse a escolhida. Marisa viu medirem a Paulo Emílio Thiesen, a rua estreita onde a área da família desemboca em um grande barranco.

Insegurança
O terceiro que veio chegou sem máscara. Marisa pediu que pusesse. Voltou, já incomodado, de máscara. Se disse paulista, engenheiro. Afirmou que "qualquer coisa", "era só ligar no 0800 da empresa", lembra Marisa. Foram embora. A professora diz que tentou ligar muitas vezes, mas a ligação sempre cai em um grande vácuo tecnológico. Nada, nem ruído.

Tempos atrás andaram sondando a área, um quarto homem entrou para tirar fotos. Marlise conta que ficou brava. "O que você está fazendo aqui?", inquiriu ela, "como entrou sem pedir licença?". O homem foi embora. Fim de história. Só que não.

Se tiverem que falar em desapropriação, pretendem resistir. Valéria, Marisa e Marlise não querem vender a área herdada dos antepassados. "Até agora não fomos procuradas para negociar nada", diz Marisa. "Vocês não sabem de nada?", pergunta Valéria algumas vezes. As filhas querem poupar a mãe. O pior é a angústia que sentem, insegurança, distúrbios do sono, noites sem dormir.

A parte que dá para a BR está em negociação com uma empresa, cuja instalação, enfatizam, trará muitos benefícios a Lajeado. Na época da eleição, o prefeito Marcelo Caumo esteve no local. Marisa disse que ponderou isso a ele. Segundo ela, seria "muito melhor" fazer um túnel à frente, o que já foi cogitado. A área de trás, onde moram, é o local em que Valéria cresceu, um espaço verdejante e cheio de flores, com um poço que as abastece de água.

Inútil
O viaduto é o primeiro logo após o trevo da ERS-130, em Lajeado, que aparece no desenho da Sondotécnica Engenharia, do Rio de Janeiro, contratada para elaborar o projeto de duplicação pela CCR ViaSul, concessionária. "É um viaduto inútil entre Olarias e Montanha, é de mão única, não interliga bairros e aumenta em muito a extensão para retorno", diz Marisa.

Marlise, a irmã, lembra dos alunos e professores da Escola Estadual Pedro Scherer, que ficarão em situação dificílima, porque, com a escola à beira da BR, terão que fazer o retorno de acesso no trevo da ERS-130. Além disso, conforme o projeto, será destinado apenas a veículos leves, sendo assim nem o Corpo de Bombeiros passará.

Embora a CCR não as atenda, como afirmam, elas esperam ser ouvidas. Acreditam que ainda o serão, pois "para isso existe a Justiça e as partes envolvidas não foram consultadas". "Se houve algo público, então fizeram em segredo, porque a gente nunca ouviu nada", dizem as irmãs.

Enquanto os lindeiros procuram por informação que a empresa não dá, cresce na Câmara de Vereadores a contrariedade ao projeto. "A CCR quer fazer pelo mais barato. Vão nos empurrar goela abaixo o projeto que querem", definiu o vereador Heitor Hoppe (Progressistas). "É preocupante, não parece o mesmo projeto apresentado pela Prefeitura", afirma o vereador Sérgio Kniphoff (PT). "Temos que evitar uma caixa de surpresas", diz Lorival Silveira (Progressistas).

O fato será tratado na reunião de comissões, quando o presidente Isidoro Fornari (Progressistas), que já foi coordenador de Projetos Especiais, deverá expor o projeto. Fornari diz que há "ajustes viáveis". Já a CCR informa que a obra começará assim que o Ibama conceder a licença ambiental, solicitada em janeiro deste ano.

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