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Preços de remédios vão ficar até 10,08% mais caros em abril

Reajuste foi publicado no Diário Oficial da União da última quarta-feira, 31, e repasse pode ocorrer a qualquer momento

Créditos: Marcel Lovato, Caroline Garske
João Henrique Machry, de 74 anos, toma aproximadamente dez remédios diferentes por dia - Lidiane Mallmann

VALE DO TAQUARI | Em uma época marcada pela escalada geral dos preços, outro reajuste chega para impactar o orçamento dos brasileiros. A partir deste mês, os valores dos medicamentos sofrerão um acréscimo de até 10,08%. Os outros níveis serão 6,79% e 8,44%, cuja variação dependerá da competitividade e faturamento das marcas. Esse aumento foi aprovado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), autorizado pelo Governo e publicado no Diário Oficial da União da última quarta-feira, 31.

Tradicionalmente, a correção ocorre em abril, mas foi adiada por 60 dias em 2020 por causa da pandemia. Na época, a média foi de 4,22%. Conforme o CMED, o percentual é definido pela Lei 10.742/2003, no qual se faz um cálculo da variação da inflação, custos dos insumos e ganhos de produtividade dos fabricantes. Além disso, cada Estado possui um preço máximo ao consumidor, de acordo com a carga tributária, puxada pelo Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). O crescimento dos preços dos insumos, a maioria importados, e das matérias-primas, em razão da alta demanda provocada pela Covid-19, aliada à desvalorização do Real são os principais fatores apontados para os aumentos.

"Daria para comprar um carro"

Aos usuários, restará lidar com aumento da despesa. Uma delas é a comerciante Valdicléria Padillha Bouvie (38), moradora de Encantado, que utiliza regularmente dois remédios para depressão. Ao longo de 2020, ela enfrentou e venceu a batalha contra o câncer. Contudo, teve de comprar toda a medicação durante o período da quimioterapia. "Tudo que já gastei em todos esses anos, daria para comprar um carro. Aliás, eu e meu marido chegamos a vender o nosso veículo a fim de podermos cobrir todas as despesas, o que incluía os deslocamentos para Lajeado e alimentação. Era muito gasto", relembra.

Para Valdicléria, o anúncio do reajuste vem em um período inadequado. "Quem está doente e/ou tem pouco, ficará em uma situação ainda mais grave. Vai ficar impossível de se tratar, não temos para quem pedir socorro. A saúde não espera", concluiu. Com um negócio no ramo da gastronomia, paralelamente, a família luta para manter as atividades, mesmo diante das dificuldades.

Indignação

Para a presidente da Associação dos Trabalhadores Aposentados e Pensionistas de Lajeado Região (Atapel), Silvia Kuhn, o gesto demonstra uma insensibilidade dos órgãos competentes, pois deve contribuir para agravar um panorama que já não é bom, principalmente dos pontos de vista econômico e da saúde. "Muitos idosos estão ajudando as suas famílias nessa pandemia, além de precisarem de medicação permanente para o controle de uma série de enfermidades. Porém, essa subida aliada ao aumento irrisório do salário mínimo, valores baixos das aposentadorias e cesta básica cada vez mais cara e sem controle, tornam a sobrevivência difícil, sem o mínimo de dignidade. Lamentamos muito. O sentimento é de consternação e indignação", finalizou Silvia.

Dez por dia

O aposentado João Henrique Machry (74) toma, em média, dez medicamentos diferentes por dia. São diversas as necessidades para a saúde do ex-químico, morador do Bairro Hidráulica, em Lajeado. Os comprimidos são ingeridos para problemas como artrose, osteoporose, hipertensão, labirintite, úlcera e gastrite. Para Machry, o impacto do acréscimo nos valores é relevante para a renda da família. "Eu tomo remédio que já não é nada barato, e agora fica pior." O jeito, segundo ele, é buscar por descontos e procurar a farmácia que ofereça as melhores alternativas. "Eu pesquiso. Para quem pode comprar em quantidade maior, a vantagem é que sai um pouco mais barato", comenta.

Repasse iniciado

Até o começo da noite desta terça-feira, 6, quatro farmácias foram consultadas pela reportagem a respeito do reajuste. A coordenação de rede da São João informou que ainda não há uma definição e maiores detalhes neste momento. A Drogaraia não atendeu às diversas ligações efetuadas. Por sua vez, a Panvel confirmou a alteração geral e gradativa dos preços, desde o último fim de semana. A maioria deve ser impactada e a variação obedece ao que foi determinado pela resolução. Desta forma, não é possível estipular uma "média". O gerente da Drogativa, Nasair Jonas da Silva, informou que as mercadorias em estoque não terão mudanças até o esgotamento. Por outro lado, tudo que foi adquirido pelo estabelecimento depois do dia 31 de março já chega reajustado.

Como em anos anteriores, espera-se que os remédios de uso contínuo, por exemplo, sejam menos alterados. De acordo com a determinação do CMED, as empresas deverão assegurar a ampla publicidade dos preços. Por sua vez, as farmácias terão de manter as listas atualizadas dos valores, assim como disponibilizá-las aos consumidores e órgãos de fiscalização caso estes solicitem-nas.


Porcentagem de aumento vai depender da competitividade das marcas - Lidiane Mallmann

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