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O vírus da solidariedade


A manifestação dos italianos de ir às janelas para conversar, cantar e ostentar faixas de incentivo comprova a necessidade que o ser humano tem, muitas vezes, de sofrer para se humanizar. A Itália foi devastada pela epidemia do novo coronavírus, assunto onipresente em todas as mídias e rodas de conversa.

Naquele país - tão amigo que nos legou a tradição do trabalho e da alegria - a população foi obrigada a ficar confinada em casa. Não. Não era uma recomendação. Era uma ordem. Quem for encontrado na rua, sem autorização especial, é notificado, paga multa e poderá ser preso.

Como acontece nas excepcionalidades, em nosso país a população ainda não despertou para a gravidade do problema. Muitos acham que as recomendações são paranoia dos especialistas e que "comigo nada vai acontecer". Outros consideram um fenômeno fabricado artificialmente pela China com finalidades econômicas.

A falta de solidariedade é marca da sociedade moderna, sufocada pela tecnologia. Muitos ajudam entidades e pessoas em situação de vulnerabilidade, mas a maioria pensa exclusivamente no próprio umbigo. O da Itália, e em diversas províncias chinesas, comprova que o sofrimento possui o condão de transformar o comportamento humano, mas não deveria ser assim. Amparar deveria ser rotina, mas é utopia neste mundo competitivo que construímos.

Especialistas dizem que o avanço do novo coronavírus não vai estancar antes de duas a quatro semanas. Neste período vamos conviver com boatos, descaso, alarmismo e descrença lastreada na falta de ações rápidas e preventivas de autoridades de diversos níveis.

O fenômeno mundial comprova a falta de estrutura e organização no enfrentamento de emergências internacionais. As armas químicas - fantasma que aterroriza países de vocação armamentistas e belicosa - ganhou força junto aqueles que cultivam os segredos da guerra. Um simples vírus, originado na China, ganhou o mundo, transformou a rotina de bilhões de pessoas e impôs o desafio de um esforço conjunto em nível planetário.

Apesar da geométrica proporção de mortos e doentes muitos continuam incrédulos diante do avanço do novo coronavírus mundo afora. Deixar de compartilhar o velho e tradicional chimarrão - o nosso chimas - por algumas semanas é um detalhe, mas parece impossível de ser alterado em nossa rotina, apesar da gravidade do nosso tempo.

De toda esta epidemia fica o exemplo doloroso e marcante de como vivemos distantes da verdadeira fraternidade. Apesar dos inúmeros avisos cada um cuida da própria vida. Líderes mundiais ignoram o momento em que uma ameaça ainda mais grave colocará em risco nações de todos os continentes.


Gilberto Jasper

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