Colunistas

Nossas gavetinhas


Quando somos obrigados a repousar, nosso cérebro entra muito mais em ação, tanto no silêncio da noite, como no calor das tardes, principalmente se estivermos sozinhos. Parece que resolvemos fazer faxina nas gavetinhas escondidas dentro de nossa cabeça. Perdemos horas travando verdadeiras batalhas com o passado. Às vezes nos arrependemos de alguns dos nossos feitos; outras, parece que a saudade vai arrebentar dentro do nosso peito.

Amigo leitor, sabemos que, quando fazemos faxinas de verdade, muitas coisas colocamos no lixo. Mas penso que isto não existe em nosso cérebro, pois vira e mexe as lembranças vão aparecendo. Algumas mais parecem o "Vale a pena ver de novo", de tanto que se repetem; ou os filmes da sessão da tarde da Globo. A gente conhece o enredo, mas assiste de novo. Têm coisas que gostaríamos de arrancar da nossa mente, no entanto elas estão lá, sem esmaecer o tom, a cor ou a dor. O jeito é mudar o rumo dos pensamentos. Nem sempre conseguimos isto e passamos a madrugada acordados, tentando conciliar a tristeza com a alegria, a saudade com as boas lembranças, a luta com a vitória e, assim, tantos outros dilemas, esperanças, rostos, exemplos vão passando, como um filme, durante as horas em que estamos em nossos devaneios.

Sempre ouvimos dizer que recordar é viver! Mas desconheço aquele que gosta de reviver aquilo que trouxe muito desconforto ou aquilo que nos fez perder o chão!!! Queremos, sim, lembrar das coisas que nos fizeram crescer como pessoas, que nos trouxeram a paz, a consciência tranquila, o respeito e, principalmente, o amor, mesmo que este nos traga muita saudade e nos faça chorar tantas vezes quanto a recordação passear por nossos pensamentos.

Caro leitor, às vezes somos capazes de criar um verdadeiro reboliço com nossas caixinhas. Nos arrependemos amargamente por temos dito ou feito algo ou por não termos tido determinada atitude que hoje teríamos. Gostaríamos de ter dito tantas coisas para determinadas pessoas..., mas elas se foram sem que pudéssemos falar... Neste momento, lembro da música dos Titãs, "Epitáfio": "Devia ter amado mais... devia ter arriscado mais... ter feito o que eu queria fazer..." Ah, como eu queria ter feito muitas coisas diferente! Não adianta! A vida é como um rio pelo qual nunca passam as mesmas águas e ele vai moldando seu curso conforme o que ele recebe. Penso que as nossas caixinhas também são assim, pois as abastecemos com nossas vivências e sentimentos, independente do grau de cada um. Mas acredito que, com a maturidade, conseguimos reorganizar determinadas gavetas para não repetirmos os mesmos erros. Por tudo isto, "ando devagar porque já tive pressa, levo este sorriso, porque já chorei demais..."

Paz e bem.


Nara Knaack

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