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Tudo bem, jornalismo: eu aceito a sua decisão


- Lidiane Mallmann/Arquivo

Coloquei alguns móveis no canto de um porão, outros amontoei, junto de malas, dentro de um golzinho vermelho. Apenas uma poltrona não serviu no bagageiro, mesmo assim o espaço estava bem pequeno para acomodar um motorista de 1m93cm. Ao anoitecer, peguei a estrada.

No rádio, tocava o álbum Segura Maracaju, de João Bosco & Vinícius. Ouvindo solados de violão e o choro de uma sanfona, recordei vivências de duas décadas na pequeníssima Miraguaí, cinco anos em Frederico Westphalen e cinco meses em Santo Augusto, onde o jornalista obrigou-se a vender pastel para se sustentar.

As recordações eram acompanhadas pelas projeções. As lágrimas, consequentes daquela mistura de sentimentos. Foram quatro horas de direção, olhadas frequentes ao GPS e reflexões. Coincidência ou não, ao som de "Aceito Sua Decisão", concluí o trajeto de 320 quilômetros até Lajeado. Estava decidido, desde meados de março, o que se consolidou por volta das 23h de 2 de abril de 2020: a minha vida ganhou uma nova trilha sonora - ainda em composição - na capital do Vale do Taquari. O jornalismo me deu uma nova chance.

De máscara e com um vidro de álcool gel na mão, desci do veículo escutando aquele bolero sertanejo. A "Porta da sala" foi aberta pelo meu melhor amigo de infância, que estava morando aqui, mas que, em meio à crise econômica, fechou seu empreendimento e retornou à nossa terra natal. Foi só um dos planos desconstruídos. Não à toa, ainda na chegada, a canção dizia que "de hoje em diante, amigos só abraço e aperto de mão", porém, no novo normal, nem isto mais foi possível.

Há exatamente um ano, deitado no quarto de visitas, eu aguardava pelo caminhão com aqueles móveis colocados num porão. Em pleno Dia do Jornalista, meus (na época, futuros) colegas estavam em home office, e ainda restavam sete dias para conhecê-los. Precisava sair dali. Naquele 7 de abril, de "porta aberta para a solidão", peguei um jornal que estava sobre o bidê e fui caminhar, desatino, pelas ruas vazias. Posteriormente, sentei em um banco na Julio de Castilhos para ler O Informativo do Vale. Aleatoriamente abri o diário em uma reportagem que informava a necessidade de doações no banco de sangue do Hospital Bruno Born. Levantei os olhos e, para minha surpresa, estava em frente à casa de saúde lajeadense. Levantei, contornei o quarteirão e fui fazer minha doação. A sensação foi de que, novamente, era o jornalismo agindo.

Passaram, desde então, 365 dias, tempo suficiente para testemunhar a crise pandêmica e a maior enchente dos últimos 64 anos. Também, na Lajeado que eu imaginei, as pessoas não usavam máscaras, o comércio ficava mais tempo aberto e as aglomerações estavam liberadas. Me adaptei junto a todos nós, lajeadenses. Algumas pessoas dizem que pouco mudou, outras afirmam que era completamente diferente. Hoje, a expectativa está pela vacinação de todos, principalmente, pela saúde, mas também para descobrir se minhas projeções faziam sentido.

Enquanto isso, certo que era pra ser assim, ao jornalismo me resta cantarolar: "tudo bem... eu aceito a sua decisão".


Ed Moreira

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