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Primeiro de abril


Ontem foi dia 1º de abril: dia dos bobos, dia da mentira, dia de enganar os outros. Quando há confiança nas palavras e nos falantes, é comum e engraçado pregar peças nas pessoas ou inventar mentiras que valeriam apenas para esta data. Será exagero  pensar que atualmente a credibilidade das informações está tão baixa a ponto das zoeiras serem questionáveis ou até mesmo grosseiras?

Pelo segundo ano consecutivo, o Google cancelou as tradicionais pegadinhas de 1º de abril que preparava em seu site - as informações criminosas e a situação preocupante da pandemia não permitem que seja feito humor desse tipo, segundo o comunicado da empresa. Vou aproveitar para falar, novamente, sobre notícias falsas - tema batido, mas insistente.

Apesar de parecer que cada vez há menos dúvidas sobre o perigo real da Covid-19, ainda há um ambiente de disputa política ou de teimosia ideológica que impulsiona o aparecimento de informações falsas. O primeiro e mais fundamental passo para não ser enganado é duvidar do que estamos lendo - mesmo que diga o que queremos acreditar.

Com efeito, é preciso desconfiar principalmente destas informações que vêm confirmar aquilo em que queremos acreditar. Uma notícia falsa não vem do nada: temos, enquanto sociedade, uma tendência de apenas confirmar aquilo em que já acreditamos, mesmo sem saber se é verdadeiro. A comoção que causa uma manchete bombástica nos pega de surpresa e aumenta a chance de acreditarmos nela com menos critério.

O Google é uma forma simples, rápida e eficiente para encontrar meios de comunicação confiáveis. Uma notícia muito importante não estará somente em um site, nem ficará restrita ao WhatsApp. Por mais que digam que a imprensa "esconde a verdade", uma grande informação não fica guardada: se algum jornal se recusar a noticiar algo, outro o fará.

Não compartilhar imediatamente o que recebemos não só evita o espalhamento de notícias falsas como evita que passemos vergonha _ hoje isso é levado a sério, nossos contatos não esquecem em quem podem confiar. Basear crenças em notícias duvidosas invalida também nossos argumentos: ou somos inocentemente tolos ou conscientemente desonestos.

É preciso desconfiar, principalmente, daquilo confirma o que queremos acreditar. Sim, estou repetindo porque a parte mais importante também é a mais escorregadia. O que mais se quer atualmente é ter razão, que aquilo em que se acredita seja verdadeiro, que o próprio argumento seja definitivo. Quando uma "notícia" vem se encaixar exatamente no espaço que faltava para termos certeza de algo, é preciso cautela.

As redes sociais nos abastecem de informação personalizada, com base em nossa interação e em nossos contatos - e estes também mais ou menos sabem o que queremos consumir, no que já acreditamos. Consumir informações contraditórias às nossas crenças nos ajuda a sair destas bolhas que, ao informar, aprisionam.

Feliz Páscoa para quem acredita.


Tiago Segabinazzi

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